Compositor Sergio Santos se confirma bom cantor no primeiro álbum de intérprete


Disco ‘São bonitas as canções’ se escora na segurança das tradições musicais do Brasil. Embora pouco conhecido do público, Sergio Santos é importante compositor mineiro, construtor de obra densa, por vezes orgulhosamente regionalista. Obra brasileira no sentido da preservação das tradições musicais de país depurador das riquezas ancestrais herdadas da África.
Não por acaso, o principal parceiro de Santos na construção dessa obra é Paulo César Pinheiro, com quem abriu e desenvolveu parceria a partir dos anos 1990.
Até então, a discografia do artista – composta por álbuns relevantes como Aboio (1995), Mulato (1998), Áfrico – Quando o Brasil resolveu cantar (2002), Iô sô (2007) e Rimanceiro (2013) – estava centrada na obra autoral de Santos, cujo cancioneiro dialoga ideologicamente e/ou harmonicamente com as produções autorais de compositores como Dori Caymmi e Guinga.
Nono título da discografia de Sergio Santos, São bonitas as canções (Kuarup) desloca momentaneamente o compositor do trilho autoral. É álbum de intérprete que evidencia voz afinada, bem colocada, que evoca o canto de Guinga (ainda que o canto deste geralmente alcance regiões e emoções mais profundas).
Capa do álbum ‘São bonitas as canções’, de Sergio Santos
Jorge Santos
Produzido por André Mehmari com o próprio Sergio Santos, o álbum São bonitas as canções apresenta 13 gravações que totalizam uma hora de música que gravita em torno do círculo de tradições, se escorando tanto na segurança dessas tradições como na beleza das canções.
Trata-se de disco de banda. Com o fantástico quarteto formado por Mehmari (piano), Nailor Proveta (clarinete), Rodolfo Stroeter (baixo) e Tutty Moreno (bateria), Sergio Santos se confirma bom intérprete neste disco em que a centelha da criatividade está mais nos toques inventivos dos músicos do que no canto em si do artista.
Na seara vocal, Santos surpreende ao evocar profundezas do canto de Milton Nascimento nos rincões mineiros que abrigam Tarde (Milton Nascimento e Márcio Borges, 1969) em gravação bafejada pelo sopro iluminado de Proveta.
A seleção das canções – todas bonitas, de fato, em maior ou menor grau – diz muito sobre o intérprete, cuja descendência artística está explicitada na escolha de Velho piano (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 1982) para integrar o repertório do disco.
Sergio Santos com os músicos do álbum ‘São bonitas as canções’
Divulgação / Kuarup
A propósito, o samba-canção é gênero recorrente nesse repertório, em gravações de clima jazzy. O pioneiro Linda flor (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Marques Porto e Cândido Costa, 1929), o evocativo Preciso aprender a só ser (Gilberto Gil, 1973) – arrematado com pertinente citação de A paz (João Donato e Gilberto Gil, 1987) – e o magoado Saia do caminho (Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, 1946) ganham registros respeitosos dentro da requintada atmosfera instrumental do álbum.
Mesmo sem oferecer sequer um registro definitivo, o álbum São bonitas as canções ratifica a habilidade do canto de Sérgio Santos, promovendo no fim o encontro do compositor com o intérprete na regravação de Nenhum adeus (Sergio Santos e Paulo César Pinheiro, 1998).
Sim, são bonitas as canções. E o cantor faz jus à tanta beleza neste disco longo, às vezes até linear, mas invariavelmente sofisticado. (Cotação: * * * *)
Categoria: Pop & Arte

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