Clarice Falcão reflete apatias musicais e existenciais na batida eletrônica do álbum 'Tem conserto'


Clima depressivo do repertório autoral distancia a artista da leveza pop do disco anterior. “Minha cabeça me faz / Crer que eu sou doida / E aí me deixa doida / Vê só a ironia”, relata Clarice Falcão nos versos da oitava estrofe de Minha cabeça, primeira das nove músicas autorais na disposição do terceiro álbum da artista pernambucana, Tem conserto.
Programações e teclados manuseados por Lucas de Paiva, produtor musical deste disco imerso em atmosfera eletrônica, envolvem a faixa em batida cerebral que, além de estar em sintonia com a letra, evidencia a coerente apatia melódica da composição.
Seis anos após ter sido projetada na cena musical com Monomania, álbum pautado por minimalismo de origem folk e calcado no espirituosa mordacidade das letras dessa artista multimídia, Clarice Falcão reaparece com disco mais denso que vai na contramão da leveza do antecessor Problema meu (2016).
Há, sim, sutis doses de ironia em letras como a de Mal pra saúde, faixa de arranjo inspirado no sintetizado pop da década de 1980. Contudo, Tem conserto é álbum imerso no clima depressivo de músicas como Morrer tanto e Esvaziou, faixa formatada por Lucas de Paiva com a adesão do contrabaixo de Vinicius Paranho.
Capa do álbum ‘Tem conserto’, de Clarice Falcão
Pedro Pinho
Como produtor musical do disco, Lucas de Paiva entendeu o espírito desanimado de repertório escrito com base em distúrbios existenciais vivenciados pela artista, vítima de depressão e ansiedade.
Ainda assim, Lucas joga na pista de dança os temas Horizontalmente – música apática sintetizada pelo verso final “Hoje eu não saio dessa cama nem a pau” – e Dia D, música que cai até em suingue tropical em sintonia com o sol metafórico que insiste em aparecer no horizonte da artista a partir desta faixa.
Tem conserto funciona como álbum conceitual. Todas compostas solitariamente por Clarice Falcão, as nove músicas devem ser ouvidas na ordem do disco para que se acompanhe o percurso existencial da narradora. Tanto que os três singles previamente lançados crescem se ouvidos na sequência do álbum.
Clarice Falcão lança o terceiro álbum, ‘Tem conserto’, produzido por Lucas de Paiva
Pedro Pinho / Divulgação
Espécie de cantada em DJ, feita sobre batidas graves, CDJ inclui até duplo sentido mordaz (“Quando a festa esvaziar / E essa noite tiver fim / Eu queria que você tocasse uma só pra mim”) que tem o significado ampliado em Só + 6, a música seguinte, espécie de saideira da festa.
No arremate do álbum, a música-título Tem conserto vê luz no fim do túnel escuro percorrido por Clarice Falcão neste disco que reverte expectativas após um luminoso segundo álbum, o já mencionado Problema meu, disco em que a artista migrou do mono para o stereo a reboque da produção de Kassin e de repertório marcado pela diversidade pop.
Mais espesso, o álbum Tem conserto reflete apatias emocionais e musicais de Clarice Falcão – compositora de melodias geralmente anêmicas – e deixa a sensação de que a cantora está em crescimento e, por isso mesmo, ainda terá dias e discos melhores, ainda que Tem conserto faça todo sentido no percurso existencial da artista. (Cotação: * * * 1/2)
Categoria: Pop & Arte

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